A análise de vibrações é, provavelmente, a técnica mais consolidada de manutenção preditiva para equipamentos rotativos como motores elétricos, bombas, compressores, ventiladores, redutores e turbinas. Em muitas indústrias, ela é considerada o principal método para detectar falhas mecânicas antes que ocorram paradas não planejadas, permitindo programar intervenções com semanas ou meses de antecedência.

Em uma frase

A análise de vibração transforma o movimento do equipamento em um “exame clínico” da máquina: cada defeito gera um padrão característico de vibração que pode ser medido, identificado e acompanhado ao longo do tempo.

Como funciona

Um sensor de vibração (acelerômetro) é instalado no motor, bomba ou compressor. Ele mede aceleração, velocidade ou deslocamento da vibração. Esses sinais são coletados por um analisador portátil, sistema online, PLC, gateway IIoT ou plataforma de monitoramento.

O sinal bruto é convertido para o domínio da frequência (FFT – Fast Fourier Transform), permitindo identificar quais frequências estão presentes e sua intensidade.

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Por exemplo:

  • 1x rotação do eixo → costuma indicar desbalanceamento.
  • 2x ou 3x rotação → pode indicar desalinhamento.
  • Frequências específicas de rolamentos → sugerem desgaste de pistas ou elementos rolantes.
  • Frequências de engrenamento → indicam problemas em redutores.
  • Bandas laterais e componentes elétricos → podem indicar defeitos no motor.

O que consegue detectar

A grande vantagem é que uma única medição pode revelar vários modos de falha.

FalhaSintoma típico na vibração
DesbalanceamentoPico elevado em 1x RPM
Desalinhamento de acoplamento1x e 2x RPM, vibração axial elevada
Folga mecânicaHarmônicos múltiplos da rotação
Rolamento danificadoFrequências BPFO, BPFI, BSF, FTF
Cavitação (bombas)Banda larga de alta frequência
Problemas em engrenagensFrequência de engrenamento + bandas laterais
Eixo empenado1x RPM com forte componente axial
Ressonância estruturalAmplificação em frequência natural da estrutura

Motores elétricos

Nos motores, a análise de vibração normalmente é usada para detectar:

  • desgaste de rolamentos,
  • desalinhamento entre motor e carga,
  • desbalanceamento do rotor,
  • folgas na base,
  • problemas de acoplamento,
  • excentricidade do rotor.

Quando combinada com análise de corrente do motor (MCSA) e termografia, consegue identificar também defeitos elétricos como barras quebradas do rotor e problemas de estator.

Bombas

Em bombas centrífugas, além das falhas comuns de motores, a vibração é excelente para detectar cavitação, um dos problemas mais críticos.

A cavitação produz um sinal característico de alta frequência e banda larga, frequentemente acompanhado por aumento de temperatura e ruído.

Também é possível identificar:

  • operação fora do ponto de melhor eficiência (BEP),
  • recirculação interna,
  • desgaste do impulsor,
  • problemas de vedação e mancais.

Compressores

Compressores apresentam padrões mais complexos porque envolvem componentes rotativos e, muitas vezes, fenômenos aerodinâmicos ou de compressão.

A análise permite identificar:

  • desgaste de rolamentos,
  • desalinhamento,
  • problemas de engrenagens,
  • instabilidade rotacional,
  • pulsação de gás,
  • folgas internas,
  • defeitos em rotores de parafuso ou centrífugos.

Em compressores críticos, é comum utilizar monitoramento contínuo online com sensores permanentes.

Medidas utilizadas

Há três grandezas principais:

  • Deslocamento (µm ou mils): útil para máquinas de baixa frequência e mancais de deslizamento.
  • Velocidade (mm/s RMS): a medida mais usada para avaliação geral de condição.
  • Aceleração (g ou m/s²): melhor para detectar falhas iniciais de rolamentos.

Na prática industrial, a velocidade RMS costuma ser comparada às normas de severidade.

Padrões e normas

A referência internacional mais usada é a ISO 20816 (que substituiu grande parte da antiga ISO 10816).

Ela classifica níveis de vibração aceitáveis para diferentes tipos e tamanhos de máquinas.

Exemplo simplificado para muitas máquinas industriais:

Velocidade RMSCondição
0 – 2,8 mm/sBoa
2,8 – 4,5 mm/sAceitável
4,5 – 7,1 mm/sInsatisfatória
7,1 mm/sCrítica

Os limites variam conforme potência, tipo de máquina e montagem.

Tendência é mais importante que o valor absoluto

Um ponto fundamental: a evolução da vibração ao longo do tempo é mais valiosa do que uma medição isolada.

Por exemplo:

  • Motor operava em 1,2 mm/s.
  • Após três meses passou para 2,0 mm/s.
  • Depois para 3,1 mm/s.

Mesmo estando abaixo de um limite crítico, o aumento contínuo indica degradação e permite planejar manutenção antes da falha.

Por isso sistemas preditivos registram histórico e tendências.

Monitoramento periódico vs contínuo

Coleta periódica

Um técnico visita a máquina semanalmente ou mensalmente com um coletor portátil.

Vantagens:

  • baixo custo,
  • ideal para equipamentos não críticos.

Monitoramento online

Sensores permanecem instalados permanentemente.

Vantagens:

  • detecção imediata,
  • alarmes automáticos,
  • integração com SCADA, MES, CMMS e plataformas IIoT,
  • ideal para ativos críticos (compressores principais, bombas de processo, turbinas, etc.).

O papel da IA e do IIoT

Nos últimos anos houve uma mudança importante: sensores inteligentes (como Banner Engineering QM30VT3, IFM, SKF, Schaeffler, Fluke, Emerson, ABB, etc.) passaram a transmitir dados continuamente via IO-Link, Modbus, Ethernet/IP, Profinet, LoRaWAN, Wireless, MQTT.

Sistemas modernos utilizam:

  • aprendizado de máquina,
  • detecção automática de anomalias,
  • classificação de falhas,
  • previsão de vida útil (Remaining Useful Life – RUL).

Isso reduz a dependência de especialistas em vibração para análises de rotina.

Limitações

Apesar de extremamente poderosa, a análise de vibração não resolve tudo.

Ela pode ter dificuldade quando:

  • a máquina opera em velocidade muito variável,
  • a carga muda constantemente,
  • existe forte interferência estrutural,
  • o sensor está mal instalado,
  • não há histórico de referência.

O que acontece quando falta lubrificação

Em um rolamento bem lubrificado, existe um filme de óleo ou graxa entre as esferas/rolos e as pistas. Esse filme reduz atrito, impacto e desgaste.

Quando a lubrificação está inadequada (falta de graxa, graxa degradada, contaminação, viscosidade incorreta etc.), ocorre:

  • aumento do atrito;
  • microimpactos entre elementos rolantes e pistas;
  • aumento da temperatura;
  • desgaste acelerado;
  • formação de micropites e descascamentos.

Esses microimpactos geram vibrações de alta frequência, muito antes de o rolamento apresentar uma falha visível.

A sequência típica

Boa lubrificação → filme lubrificante estável → baixa vibração de alta frequência.

Lubrificação insuficiente ou degradada → atrito e microimpactos → aumento de vibração de alta frequência.

Desgaste progressivo → frequências características do rolamento aparecem → falha do rolamento.

Como o analista percebe isso

O sinal mais usado é o envelope de aceleração (enveloping ou demodulação).

Em vez de olhar apenas a vibração geral em mm/s, o sistema filtra as altas frequências (tipicamente alguns kHz) e procura impactos repetitivos muito pequenos.

Um exemplo simplificado:

Nível de envelope (gE)

tendência

Normal

Atenção

Crítico

Quando a lubrificação começa a falhar, esse valor sobe gradualmente, mesmo que a vibração global da máquina ainda pareça normal.

O espectro típico

Em um problema de lubrificação, o analista costuma observar:

  • elevação da banda larga de alta frequência;
  • aumento do ruído entre 2 kHz e 20 kHz (dependendo do sensor);
  • crescimento do valor de aceleração RMS;
  • aumento do fator de crista (crest factor), porque surgem impactos esporádicos.

À medida que o problema evolui, aparecem as frequências características do rolamento:

  • BPFO – defeito na pista externa;
  • BPFI – defeito na pista interna;
  • BSF – defeito no elemento rolante;
  • FTF – defeito na gaiola.

Ou seja, a má lubrificação normalmente é detectada antes da falha clássica do rolamento.

Como diferenciar de um rolamento já danificado

Esse é o ponto interessante.

Lubrificação inadequadaRolamento danificado
Banda larga de alta frequênciaPicos definidos em BPFO/BPFI/BSF
Aumento do envelopeEnvelope muito elevado
Poucos harmônicosHarmônicos e bandas laterais
Temperatura começa a subirTemperatura geralmente alta
Pode ser revertido com relubrificaçãoNormalmente requer substituição do rolamento

Um analista experiente consegue observar se o aumento de alta frequência ocorre sem frequências características definidas; isso costuma indicar problema de lubrificação, e muitas vezes uma simples relubrificação reduz imediatamente o nível de vibração.

Um exemplo real de manutenção preditiva

Imagine um motor de 75 kW acoplado a uma bomba.

  • Vibração global: 1,8 mm/s (normal)
  • Temperatura do mancal: 48°C (normal)
  • Envelope de aceleração: 0,6 gE → 1,1 gE → 2,0 gE em três semanas

O sistema gera um alerta.

A equipe realiza relubrificação correta (quantidade e tipo de graxa especificados).

Após algumas horas de operação:

  • Envelope cai para 0,7 gE;
  • temperatura estabiliza;
  • nenhuma troca de rolamento é necessária.

Se a relubrificação fosse ignorada, semanas depois começariam a aparecer BPFO/BPFI e o rolamento provavelmente falharia.

Por que sensores modernos conseguem fazer isso

Sensores como o Banner QM30VT3 mede simultaneamente vibração e temperatura.

A combinação é muito poderosa:

  • vibração alta + temperatura normal → início de problema mecânico ou lubrificação;
  • vibração alta + temperatura alta → lubrificação crítica ou desgaste avançado;
  • temperatura alta sem vibração significativa → excesso de graxa, problema de carga ou condição operacional.

Na prática, muitos programas de manutenção preditiva utilizam justamente temperatura + envelope de vibração como indicador de necessidade de relubrificação baseada em condição, em vez de lubrificar por calendário.